Bíblia Galileia


Duas vírgulas fazem toda a diferença!
 

A Bíblia é um livro muito importante e deve ser traduzida com zelo. E zelo não deve ser confundido com boas intenções, pois como diz um velho ditado "de boas intenções, o inferno está cheio". Deve-se entender, assim, que traduzir a Bíblia é uma atividade humana, intelectual. E, como toda atividade humana, está sujeito a falhas, independente de quem o faça e de suas motivações. Nesse sentido, quem pensa que alguém que considera a Bíblia a Palavra de Deus irá traduzi-la com muito mais correição do que alguém que a entende apenas como um belo livro de literatura, não está sendo correto, mas sim preconceituoso. Embora a Bíblia tenha uma mensagem espiritual, ela foi escrita em língua humana, e sua interpretação deve se basear em como um texto, escrito por mãos humanas, é interpretado, ou seja, utilizando-se a gramática de uma língua humana, o dicionário de uma língua humana, e os recursos sintáticos de uma língua humana.


 

Um outro erro é querer impor aos tradutores da Bíblia uma "espiritualidade artificial". Por mais que um tradutor bíblico ore antes de iniciar a tradução de algum trecho, isso não garante que ele irá entender, por mais sincero e contrito que seja, o que o autor que escreveu o texto bíblico quis transmitir. Querer deslocar a autoria espiritual dos textos bíblicos originais, escritos em hebraico, aramaico e grego, para um texto traduzido, é querer que a mão que o traduziu não seja o do tradutor, mas o do próprio Deus. E nenhuma tradução da Bíblia é divinamente inspirada, embora alguns grupos religiosos abracem algumas versões como sendo a própria Palavra de Deus, apesar de serem apenas traduções.


 

Dessa maneira, sempre que a Comissão de Tradução da Versão Galileia aponta falhas na maneira como os tradutores e intérpretes traduziram ou interpretaram a Bíblia, isso não deve ser entendido como uma tentativa de destruir a reputação, a veracidade ou a inspiração divina da Bíblia – e essa não é a intenção dessa equipe de estudiosos. Para nós, os homens e mulheres que traduziram a Bíblia são gente de carne e osso como nós, que vai ao banheiro como qualquer pessoa, e não podem – nem devem – ser endeusados. Eles podem se equivocarem, apesar do desejo de realizarem uma boa obra. E esse equívoco pode, em grande parte, ter como causa as limitações que tinham quando traduziam o texto, ou mesmo a própria maneira ocidentalizada como entenderam e interpretaram a Bíblia, um livro oriental.


 

É nesse sentido que nós, da Comissão de Tradução Galileia, gostaríamos de explicar a diferença que há entre a "equivalência dinâmica" e a "equivalência funcional intersinfrônica". Usaremos, para isso, um exemplo que ilustra como elaboramos a nossa tradução, e o que fizemos para evitar leituras que, em nossa opinião, não têm qualquer fundamentação. Lembramos que cada tradutor ou equipe de tradução tem o direito de traduzir a Bíblia como melhor lhe apraz. E isso não está em discussão aqui. Se comparamos o nosso trabalho tradutório-interpretativo com o de outros isso de deve ao fato de que nenhum discurso surge do nada, mas nasce de outros anteriores. Assim, nenhuma tradução ou projeto de tradução da Bíblia nasce do nada, tendo em vista que há inúmeras traduções e modos de traduzir a Bíblia vigentes, sobretudo em línguas em que várias versões bíblicas competem entre si no mercado editorial.


 

Portanto, tornou-se precípuo, diante de inúmeras perguntas que já nos foram feitas e das comparações inevitáveis entre o nosso modo de traduzir e de outros, que precisássemos explicitar a qual princípio de equivalência a Versão Galileia segue, no caso a equivalência funcional intersinfrônica, e não a equivalência dinâmica, como o fazem outras versões bíblicas. É importante destacar, antes de explicar a diferença entre esses dois princípios, que não queremos dizer com a palavra "equivalência" que exista uma "igualdade" entre o texto da tradução e o texto que o originou, mas sim uma tentativa de imitação. Além disso, e para evitar digressões, cumpre também destacar que seguimos a teoria da gramática sistêmico funcional de vertente, sobretudo Dik-Hallidayana. em nossa busca por estabelecer, no texto de chegada, funções iguais ou parecidas às que ocorrem no texto de partida.


 

A pequena epícope que servirá como mote de comparação entre a Versão Galileia, que usou os princípios da equivalência funcional intersinfrônica, e outra, que usou os princípios da equivalência dinâmica, é a narrativa alegórica que ocorre no capítulo 14 do Evangelho de Lucas, nos versículos 28 a 30, com alguns desdobramentos nos versículos 31 e 32. Para ficar mais claro ao leitor leigo, elaboramos uma tradução semi-literal do trecho em questão, obedecendo praticamente à mesma sequência enunciativa que ocorre no texto grego, etapa essa que é a segunda na metodologia tradutória que seguimos. Vale lembrar, a propósito, que o texto grego não tem pontuação, e que as palavras em colchete são nossas e visam apenas tornar o texto mais compreensível e fluente em língua portuguesa.


 

28 Quem, pois, de vocês, desejando construir uma torre, primeiro, tendo se sentado, não calcula o custo, se tem para o termino, 29 a fim de, tendo [ele] colocado a alicerce dela [da torre], e não tendo forças [de] concluí-la, todos os que a olhando [olhem] comecem dele zombar 30 dizendo: Este homem começou a construir e não teve forças de terminar-[la].

 
Tradução semiliteral – Etapa 2 – Lucas 14:28-30

 

A título de comparação, transcrevemos como a outra tradução, no caso a NVI, traduziu tal epícope (os trechos em itálico são para destacar as principais diferenças, que serão expostas em notas no final) e, logo depois, como ela foi traduzida na Versão Galileia:


 

28 "Qual de vocês, se quiser (1) construir uma torre, primeiro não se assenta (2) e calcula o preço, para ver (3) se tem dinheiro suficiente para completá-la? 29 Pois, (4) se lançar o alicerce e não for capaz (5) de terminá-la, todos os que a virem rirão dele, 30 dizendo: 'Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar'.

 
NVI – Lucas 14:28-30

 

28 Qual de vocês, desejando construir uma torre, não se senta e primeiro calcula quanto vai ser gasto, e se o que tem é suficiente para concluí-la, 29 a fim de evitar que, tendo colocado o alicerce, mas não sendo capaz de terminá-la, todos os que a olhem comecem a zombar, 30 dizendo: 'Este homem começou a construir, mas não foi capaz de completar o prédio que estava erguendo'.?

 
Versão Galileia – Lucas 14:28-30

 

Para que fique bastante claro como o princípio da equivalência dinâmica não usa os mesmos pressupostos do princípio da equivalência funcional intersinfrônica, iremos nos ater, neste breve artigo, apenas às diferenças mais significativas, principalmente qual seria a relação sintático-semântica do advérbio "primeiro" (próton, em grego) com os outros elementos mo texto grego de partida, e como essa relação foi transmitida no texto traduzido da Versão Galileia.


 

É bom destacar outra vez que o texto grego de partida não traz nenhuma pontuação, que deverá ser colocada pelo tradutor, o que torna a tarefa de estabelecer os vínculos sintáticos uma tarefa interpretativa de suma importância. É evidente que a própria sequência enunciativa da narrativa e/ou o uso de marcas interrogativas apontam geralmente em quais lugares e quais tipos de pontuação devem ser empregados. Muitas vezes, também, o próprio gênero textual empregado dá também pistas acerca dessa questão. Não obstante, é a relação de temporalidade que os verbos assumem, quando associados entre si na tessitura textul, o que vai realmente definir qual pontuação deve ser empregada, tendo em vista que será essa associação que irá definir quem é o sujeito-agente de cada ação específica, qual a importância de cada ação em relação à outra, e qual é a sequência temporal em que elas acontecem. 

 

No caso em foco, fica bastante claro, numa análise estrutural, que há dois grupos de sequências temporais na epícope, num paralelismo muito comum nos relatos parabólicos do Novo Testamento, ou seja, uma de ações desejáveis e outra de ações indesejáveis, que decorrem da não realização das ações do primeiro grupo, como se pode ver no quadro a seguir:

 

Grupo 1 – Ações desejáveis
1ª ação: desejar construir (o homem)
2ª ação: sentar-se (o homem)
3ª ação: calcular o custo (o homem)
4ª ação: avaliar os recursos disponíveis (o homem)

 

Grupo 2 – Ações não desejáveis
1ª ação: pôr os alicerces (o homem)
2ª ação: não ter forças de concluir (o homem)
3ª ação: olhar (outros)
4ª ação: zombar com palavras (outros)

 

Já na ilustração seguinte, que tem também como tema a preparação antes de tomar uma decisão importante, vê-se também quatro ações, mas em apenas um grupo, não se explicitando quais seriam as consequências se essas não fossem executadas (que são implícitas no relato alegórico e por isso não foram mencionadas).


 
1ª ação: Ir para uma guerra (o rei com dez mil homens)
2ª ação: Sentar (o rei com dez mil homens)
3ª ação: Avaliar sua capacidade de enfrentamento (o rei com dez mil homens)
4ª ação: Enviar uma delegação e propor um acordo de paz (o rei com dez mil homens)

 

Numa primeira leitura, analisando apenas a sequência temporal que ocorre nessas duas epícopes, seríamos levados a concluir erroneamente que o advérbio "primeiro" se vincularia sintática e semanticamente à ação de sentar, pois essa ação é obviamente feita antes da ação de avaliar/calcular, em ambos os relatos. Todavia, quando analisamos em qual posição tal advérbio ocorre, e quais são os seus vizinhos, percebemos que na primeira epícope ele vem depois da partícula negativa "não" e antes tanto do verbo "sentar", que é seguido do verbo "calcular"; já na segunda epícope, o advérbio "primeiro" ocorre também depois da partícula negativa "não", mas numa posição intermediária entre o verbo "sentar" e o verbo "decidir". Percebemos também algo bastante intrigante: em ambos os casos o verbo "sentar" está no particípio aoristo.


 

Teríamos assim o seguinte quadro:


 

v. 28: não [primeiro] tendo sentado calcula...
v. 31: não tendo sentado [primeiro] decide...

 

Portanto, as perguntas que não querem se calar são as seguintes:


 


  • A qual dos dois verbos o advérbio primeiro se refere em cada trecho: ao verbo sentar, ou ao verbo calcular?
  • A partícula negativa "não" se refere a qual verbo em cada trecho? Ao verbo "sentar", ou ao verbo "calcular/decidir" ?


 

É nesse momento que se mostra, de modo bastante nítido, a diferença de pressupostos que permeiam o princípio da equivalência dinâmica e o princípio da equivalência funcional intersinfrônica, que estão sendo aqui comparadas. A primeira desprestigia uma tradução "formal" e sobrevaloriza uma tradução dita "dinâmica", na qual a "forma" pode ser modificada a bel prazer quando se entender que uma tradução formal não irá proporcionar um texto que seja percebido pelo leitor ou ouvinte da língua receptora como "natural". Em outras palavras, quando a forma "compromete" a fluência do texto, essa deve ser modificada no texto de chegada, esse é o principal pressuposto. 


Já na equivalência funcional intersinfrônica não há esse confronto inconciliável entre forma e mensagem, pois tal concepção entende que na forma, ou seja, na maneira como o texto foi construído, está a mensagem. Ou em outras palavras, a mensagem só pode ser compreendida a partir da forma com a qual o texto foi construído. Nesse sentido, o que importa mais não é a mensagem que está sendo transmitida, mas a maneira como ela foi redigida.


 

Voltando para o texto, fica bastante claro que o uso do verbo "sentar" no particípio aoristo em grego (tendo sentado, numa tradução literal) já denota a ideia de temporalidade, visto que os particípios são, em essência, verbos escravos que dependem de outros verbos para expressarem uma sequência narrativa completa. Portanto, seria uma grande redundância, desnecessária e contraproducente, que o advérbio "primeiro" se refira, nesses dois casos, ao verbo "sentar". Além disso, fica claro, numa análise semântica das duas ilustrações, que a ação de "decidir/calcular" é que a prioritária. Ou seja, a ênfase nas duas historias alegóricas apontam que o destaque está numa avaliação cuidadosa antes de tomar uma decisão importante. Portanto, o advérbio "primeiro" se relaciona com a ação de "decidir/calcular" e expressa nessas duas narrativas prioridade, e não antecedência.


 

Transportando essa ideia-função para o texto da língua receptora, de acordo com uma visão funcionalista, concluiríamos que qualquer solução tradutória que expresse a ideia de que a ação de "sentar" ocorreu antes da ação de "calcular/decidir", e qualquer solução tradutória que expresse a ideia-função de que o advérbio "primeiro" se refere ao verbo "decidir/calcular", são satisfatórias, independente se é mantida ou não uma equivalência formal strictus sensu. Nos trechos em questão, por exemplo, a Versão Galileia preferiu traduzir os dois verbos que estão no particípio aoristo em grego por verbos no presente do indicativo no texto traduzido (se senta, no texto em português), embora numa tradução literal eles devessem ter sido traduzidos por locuções participais (tendo se sentado). Isso ocorre, pois na equivalência funcional intersinfrônica o que importa é retransmitir no texto de chegada as mesmas funções (ou similares) que ocorrem no texto de partida, independente se serão mantidas ou não as mesmas maneiras de dizer (formas).


 

Fica, assim, bastante claro o quanto é bom colocar as vírgulas nos lugares certos. A Versão Galileia não segue nem o conceito de equivalência formal nem o da equivalência dinâmica, mas segue o princípio que convencionou como equivalência funcional intersinfrônica.


 

A Comissão de Tradução Galileia




Notas adicionais


(1) A NVI prefere traduzir o particípio presente grego por um verbo no futuro do subjuntivo, vinculado a uma preposição condicional - se quiser -, transmitindo assim uma ideia hipotética. A Versão Galileia, por sua vez, prefere usar o gerúndio (desejando), pois entende que dessa maneira a narrativa se torna mais dinâmica e viva. 


(2) A NVI entende que o advérbio primeiro se refere ao verbo sentar - primeiro se assenta. A Versão Galileia entende que esse advérbio se refere ao verbo calcular - ...se senta e primeiro calcula


(3) Não há no texto grego nenhuma justificativa para a preposição diretiva para na sentença ...e calcula o preço, para ver, expressa na NVI. O texto da parábola enfatiza apenas um cálculo: o dos recursos. Subtende-se que o construtor já sabia ou supunha quanto iria custar toda a obra.


(4) Outra função que a NVI não retransmitiu em seu texto foi a de meta-alvo, explicitada em grego pelo uso da preposição hina (a fim de - no texto da Versão Galileia). Para piorar ainda mais, essa tradução substitui essa preposição por uma explicativa - pois -, ideia essa que, além de não ser transmitida no texto de partida, destrói o paralelismo duplo de quatro ações da narrativa alegórica em foco: quatro ações devem ser feitas para evitar quatro ações que não devem acontecer.


(5) A Versão Galileia, diferente da NVI que opta por verbos no futuro do subjuntivo - se lançar o alicerce e não for capaz -, opta por dois verbos no gerúndio - lançando a alicerce e não sendo capaz -, por entender que a narrativa ganha em vivacidade.











Jesus teria elogiado uma conduta desonesta na Parábola do Administrador Prudente?




A seguir transcrevemos como foi traduzida na Versão Galileia a Parábola do Administrador Prudente, considerada até mesmo por eruditos como uma das passagens mais difíceis de ser interpretadas no Novo Testamento.

Em seguida, expomos um breve estudo temático que analisa se nessa história alegórica Jesus teria ou não elogiado uma conduta desonesta.

Observem, ao ler a Versão Galileia e logo depois as explicações, como um texto que por muitos séculos desafiou os mais renomados especialistas tornou-se tão simples e fácil de entender.


A Parábola do Administrador Prudente

16 E Jesus também falava aos seus discípulos: “Havia um homem rico que tinha um administrador, e esse foi acusado de estar desperdiçando os seus bens.2 E o seu senhor então o chamou e lhe disse: ‘O que é isso que eu estou escutando a seu respeito? Preste contas da sua administração, pois você não pode mais ser meu empregado.’
3 E o administrador então disse para si próprio: ‘Que faço agora? Meu senhor está tirando de mim o sustento. Cavar, não tenho forças... mendigar, tenho vergonha... 4 Ah, já sei o que vou fazer, para que as pessoas me recebam em suas casas, mesmo que eu seja demitido deste meu emprego.’
5 E, depois de chamar cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: ‘Quanto você deve ao meu senhor?’ 6 E respondeu o devedor: ‘Cem tonéis de azeite.’ E o administrador então lhe disse: ‘Tome o seu recibo, sente-se,  e escreva rápido cinquenta.’
7 E, em seguida, perguntou a um outro devedor: ‘E você, quanto deve?’ E ele respondeu. ‘Cem sacos de trigo.’ E ele lhe disse: ‘Tome o seu recibo e escreva oitenta’.
8 E o senhor então elogiou o administrador da injustiça, porque este agiu com prudência. Pois os filhos deste mundo são mais prudentes em benefício de si próprios do que os filhos da luz.” 9 E eu lhes digo “Conquistem para vocês amigos, com as riquezas da injustiça, para que eles recebam vocês nos tabernáculos eternos, quando essas lhes faltarem, .


1. O posicionamento contrário à autoria de Jesus

Alguns defendem que a parábola do administrador prudente não teria sido narrada por Jesus. Afinal de contas, haveria nessa história – defendem eles – um elogio explícito a uma conduta que teria sido desonesta: o administrador persuadiu os clientes do seu senhor a falsificar as notas de débito, reduzindo as somas que deviam ao patrão dele. Portanto, como afirma Geza Vermes “...é difícil entender como essa abordagem calculista se encaixa na perspectiva religiosa de Jesus; consequentemente, é difícil que a parábola seja dele.” (O autêntico Evangelho de Jesus, p. 193). É importante notar, assim, que Geza Vermes e outros que concordam com esse ponto de vista (Bulttman; C. C. Torray, dentre outros) alegam que essa narrativa ficcional extrairia uma lição positiva de uma ação desonesta, o que iria de encontro ao perfil religioso de Jesus. Portanto, Jesus não teria sido o autor dessa parábola – concluem –, mas, sim, Lucas.


2. Dois detalhes expõem a falácia dos argumentos dos críticos

Todavia, quando se analisa mais detalhadamente os argumentos que são usados por esse (Geza Vermes, p. já citada) e outros eruditos para sustentar que Jesus não teria narrado essa história ficcional aos discípulos, bem como o modo como os que defendem tal ponto de vista a interpretam, percebe-se claramente que os alicerces para tal tipo de opinião são deveras falaciosos. Os que negam a autoria de Jesus nessa parábola pressupõem, em linhas gerais, que a desonestidade do administrador jamais poderia ter sido elogiada por Jesus. A falácia argumentativa da opinião desses críticos se resume ao fato de que, na ânsia de provar de qualquer maneira que a parábola não foi narrada por Jesus, deixaram de perceber (e de analisar) dois detalhes que são cruciais para se interpretar a parábola como um todo, os quais comprovam que nela nada há que real­mente destoe do perfil religioso de Jesus – principal e único argumento para alegar que não teria sido ele o seu autor.

1. Não foi Jesus quem elogiou o administrador, mas o patrão do administrador, o qual a parábola sugere que era um rico proprietário de terras, e o qual, como evidencia o texto, tal como o seu empregado, era um filho deste mundo.

2. Há na parábola uma explicação ao elogio do administrador diante da suposta ação fraudulenta de seu ex-funcionário, explicação essa que foi dada pelo narra­dor (Jesus) logo depois desse elogio, e a qual foi muito mal traduzida nas mais diversas versões bíblicas, nos mais diversos idiomas.


3. A importância interpretativa do pronome reflexivo genitivo grego

O primeiro detalhe deixa bastante claro que o elogio ao administrador não foi feito por Jesus. Foi um filho deste mundo quem elogiou outro filho deste mundo. Corroborando com esse ponto de vista, alguns comentaristas entendem que o uso do pronome reflexivo genitivo eu­atous (traduzido como de si mesmos, no texto da Versão Galileia) se referiria tanto ao patrão quanto ao seu ex-empregado (note-se que esse pronome reflexivo não é traduzido em inúmeras versões bíblicas). Ou seja, o uso desse pronome reflexivo seria uma fortíssima evidência de que tanto o administrador quanto o seu chefe tinham a mesma mentalidade e a mesma índole. E isso é bastante lógico! Nada mais normal que alguém que visa apenas o lucro pessoal fizesse um elogio a uma outra pessoa que também só visa o lucro pessoal, ainda que (talvez) tenha sido prejudicado por ele – o que ocorre nessa narrativa ficcional.


4. A ênfase na união de mentalidade e propósitos

Esse segundo detalhe evidencia que o narrador (opinamos que este foi Jesus) destaca a unidade de propósitos e de ação que há entre os filhos deste mundo, contrastando com a desunião e a falta de empenho que há entre os filhos da luz. É curioso notar que em nenhuma parte da parábola exista qualquer insinuação de que uma suposta conduta desonesta do administrador deva ser imitada pelos filhos da luz. Entender isso é como querer ver o que não existe a partir de pressuposições que não têm qualquer respaldo no que o texto diz ou sugere. Fica bastante claro na narrativa, ao contrário, que os filhos da luz devem imitar a união de mente e de propósitos que os filhos deste mundo têm quando algo interessa e beneficia a esses, e não suas práticas.


5. A lição e o mote da parábola

A lição que a parábola tenta transmitir é a de que os filhos da luz devem aprender a ser perspicazes, e, sobretudo, devem aprender a se unir no que concerne aos assuntos que interessam ao Reino de Deus, do mesmo modo como os filhos do mundo o fazem em assuntos que lhes interessam ou os beneficiam. O exemplo do administrador apenas serviu de mote para esse apelo, que perpassa toda a parábola e que tem como cume a explicação e o conselho final (v. 9), que ser­vem ambos apenas como um complemento que visa evitar mal entendidos, ou seja, para evitar a leitura de que Jesus estaria incentivando que os filhos da luz (leia-se: seus discípulos) imitassem a conduta egoísta (e/ou supostamente desonesta) do administrador da parábola que ele acabara de narrar.


6. A importância dos dois últimos versículos

Compreender que “...os dois últimos versículos louvando o comportamento do administrador e recomendando usar o ‘dinheiro da iniquidade’ são provavelmente secundários.” (O autêntico Evangelho de Jesus, p. 193, autor já citado), é não entender que esse conselho final foi encaixado na parábola para evitar mal entendidos sobre a sua real lição. Esse final, após o clímax da parábola, nada mais é do que uma explicação adicional que busca evitar uma leitura equivocada do que foi dito nessa história alegórica. O que é dito nesses dois versículos é que os filhos da luz devem usar as riquezas materiais para promover o Reino de Deus, mesmo que elas, em sua essência, pertençam a este mundo, o que provavelmente incluía a bolsa comum descrita nos Atos dos Apóstolos.


7. A tradução do elogio à prudência dos filhos deste mundo

Pode causar um certo assombro a maneira inovadora como a Versão Galileia traduziu Lucas 16:8. É por isso que é importante destacar cinco aspectos cruciais que poderiam passar despercebidos dos leitores e que permeiam essa tradução bíblica nesse versículo específico. 

1. A aplicação da visão teórica do Funcionalismo, de vertente sobretudo Dik-Hallidayana, foi fundamental para entender que a preposição diretiva eis - para - apontava para um objetivo, para uma meta, e que por isso era importante retransmitir no texto da tradução essa mesma função, o que foi alcançado usando a preposição "em" em língua portuguesa.

2. Além disso, essa teoria fez possível ver que o pronome reflexivo grego eautous tanto funciona para designar que havia reciprocidade na ação descrita, quanto também reflexividade. Ou seja, o benefício citado na explicação de Jesus era pessoal e de um grupo simultaneamente (o pronome reflexivo, como já foi dito, se refiriria concomitantemente ao patrão e ao seu ex-empregado). 

3. Pesquisas quanto ao uso da palavra grega geneá demonstraram que, em Lucas 16:8, ela não foi empregada com o sentido literal de geração ou prole, o que foi confirmado quando se descobriu posteriormente que toda a sentença grega (eis ten genean ten eauton eisin) se tratava de um semitismo.

4. O critério intersinfrônico fez com que os tradutores optassem por uma tradução que se afastou um pouco do literalismo (uma tradução literal seria: para o benefício de si mesmos), visto buscar uma maior expressividade e uma maior proximidade com o português que é falado nas grandes áreas metropolitanas do Brasil nos dias de hoje (início do século XXI).

5. Uma pesquisa sobre o uso da palavra adikias - injusto - e seus cognatos nos levou a perceber que Lucas, um autor que usa um grego erudito, utiliza-se de um adjetivo no versículo 11. Portanto, quando ele usou um genitivo no versículo 8 (o administrador da injustiça), mui provavelmente queria enfatizar que o administrador gerenciava algo injusto, e não que esse era injusto (embora até o pudesse ter sido no relato). O contexto deixou claro que essa leitura é bastante coerente e verossímil, visto que o conteúdo do v. 8 depõe contra os filhos da luz, que deveriam ser mais resolutos, e não contra a atitude do administrador.


8. O elogio à sagacidade, e não à desonestidade

Além disso, fica bastante claro, tanto na narrativa quanto na estrutura do texto grego, que esse patrão elogiou, não necessariamente uma atitude desonesta (o texto é cheio de insinuações, mas pobre em detalhes…), mas, sim, a sagacidade do seu ex funcionário em buscar uma saída que, no mínimo, remediasse as consequências desagradáveis da perda do emprego. O administrador, de fato, foi muito astuto ao descontar o valor dos débitos (ele talvez estivesse retirando a sua comissão, ou os juros abusivos que o seu patrão mandara ele cobrar), ou em cobrar a dívida com descontos, para roubá-la. Só com esses ardis ele conseguiria angariar para si a simpatia dos devedores, ou algum valor para se sustentar (caso ele tenha recebido o valor que foi acertado no acordo com os devedores). Também é bastante verossímil entender que a explicação que foi dada a esse elogio evidencia que o patrão pensou como alguém do mundo pensaria, daí porque o seu elogio. Em outras palavras, ele teria feito o mesmo que o administrador fez, se estivesse no seu lugar nas mesmas circunstâncias. Também é muito verossímil entender que o elogio do patrão a seu ex-empregado, mencionado por Jesus, deve ser compreendido muito mais como uma admoestação aos filhos da luz do que como um elogio aos filhos deste mundo. 




Observações adicionais:

(1) Vale notar o que Kenneth Bailey, em seu livro "As Parábolas de Lucas - Uma análise literária-cultural", nas páginas 257 e 258, diz a respeito da Parábola do Administrador, narrada em Lucas 16:1-11:

 "Muitos comentaristas afirmam que esta parábola é a mais difícil dentre todas as parábolas sinóticas. Como já observamos, os problemas são tão completos que tanto Tomás de Vio Cajetan (1469-1534) quanto Rudolf Bultmann as declararam insolúveis. A multiplicidade e a complexidade dos problemas desta parábola são sucintamente mencionados por C.C. Torrey, que escreve:

Esta passagem (Lucas 16:8s.) nos apresenta um novo Jesus, que parece inclinado a transigir com o mal. Ele aprova um programa de astuto interesse próprio, recomendando aos seus discípulos um padrão de vida que é geralmente reconhecido como inferior: "Eu vos digo: ganhai amigos por meio do dinheiro." Isto ainda não é o pior; ele baseia o ensinamento da estória de um patife inteligente, que se enriqueceu às custas do homem que havia confiado nele; e então vem dizer aos seus discípulos: "Que este seja o seu modelo"

(2) Note-se que há na Parábola do Administrador Prudente um paralelismo semântico entre o genitivo "o administrador da injustiça" no versículo 8 e "riquezas da injustiça" no versículo 9. O uso desse paralelismo provaria que os dois genitivos devem ser compreendidos como sendo objetivos: (administrador de algo que é injusto; dinheiro que provém da injustiça) e não como subjetivos (administrador que é injusto; dinheiro que é injusto).

(3) Além do uso da teoria funcionalista, de vertente Dik-Hallidayana, os tradutores da Versão Galileia se utilizam da Teoria da Metáfora Conceptual, de Lakoff & Johnson, como base de sustentação para o seu trabalho tradutório-interpretativo.

(4) Muitas traduções, em várias línguas, apenas copiaram a maneira de traduzir da Vulgata Latina (in generatione sua) quando traduziram a sentença grega “eis ten genean ten eauton” por “em sua geração” ou algo similar, em Lucas 16:8. Traduções que a traduziram por “nos seus negócios" (NTLH) ou "entre si" (NVI) não retransmitiram a função de meta, expressa no texto grego pela preposição diretiva eis e por isso não seguem o princípio da equivalência funcionalista intersinfrônica como a Versão Galileia - ver próxima nota.

(5) Os tradutores da Versão Galileia buscam o que denominaram como equivalência funcional intersinfrônica imitativa, ou apenas equivalência funcional intersinfrônica.

(6) É difícil dizer se o administrador, citado nesse relato, agiu de maneira honesta ou desonesta quando reduziu o valor das dívidas dos devedores. O texto não expõe os detalhes que estavam por detrás dessa sua ação, e por isso nada pode ser afirmado com muita convicção. Haveria, assim, várias suposições verossímeis: 1. Ele retirou os juros abusivos que eram cobrados nas dívidas dos devedores; 2. Ele retirou a comissão de que tinha direito por seu ofício de administrador; 3. Ele negociou um pagamento à vista, com desconto, o qual embolsou para si. Vale também observar que, no v. 1, não foi dito que ele roubara os bens de seu patrão, mas que ele os desperdiçara (foi usado diaskorpizo, e não klepto – roubar - ou arpazo – arrebatar, saquear).

(7) Note-se que, mesmo que a parábola não diga explicitamente que esse administrador agiu desonestamente, também em nenhum momento ela comenta que ele fosse uma pessoa de boa índole. Fica claro que ele, quando reduziu o valor das dívidas, apenas queria se beneficiar, ou obtendo a simpatia dos devedores, ou embolsando para si todo o pagamento das dívidas, feito com desconto. O advérbio "depressa" referindo-se à ação de "escrever" (outro ineditismo da Versão Galileia, que tem como argumento de apoio o uso de um particípio aoristo) sugere que ele agiu sorrateiramente, antes que todos soubessem que ele havia sido demitido, e antes de entregar (supõe-se) o relatório de sua administração ao seu agora ex patrão. Note-se, a propósito, a comparação implícita que Jesus fez: conquistar benefícios para si (administrador); conquistar amigos para o Reino de Deus (filhos da luz). A primeira atitude revela um interesse egoísta; a segunda, um interesse altruísta.

(8) Nada há de incongruente no fato de que o patrão elogiou a atitude do seu ex empregado, mesmo que entendamos que ele foi prejudicado, como alguém poderia supor numa leitura apressada. Afinal de contas, um filho deste mundo elogiou outro filho deste mundo. Note-se que um elogio nao quer dizer necesariamente que alguém gostou de algo, mas sim, necessariamente, que alguém viu alguma qualidade em algo.

A vida de uma pessoa não está na abundância de seus bens



A Parábola do Rico Egoísta

13 Nessa ocasião, alguém que veio da multidão disse a Jesus: “Mestre, diga ao meu irmão que ele divida a herança comigo!”
14 Mas Jesus lhe disse: “Homem, quem por acaso me nomeou juiz ou mediador entre vocês?” 15 E então lhes falou: “Tomem cuidado com todo tipo de mesquinharia, porque a vida de uma pessoa não está na abundância de seus bens”. 16 E lhes falou então uma parábola: “A terra de um homem rico produziu uma excelente colheita. 17 E ele, diante disso, ficava conversando consigo mesmo, dizendo: ‘O que farei? Não tenho onde armazenar todo esse meu ganho’.
18 E, então, disse: ‘Farei o seguinte! Irei derrubar os meus celeiros e construirei outros maiores, e ali armazenarei todo o meu trigo e todos os meus bens. 19 Depois direi para mim. Amigo, você tem muitos bens, que es­tão armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e festeje!’ 
20 Contudo, Deus lhe disse: ‘Estúpido! Nesta mesma noite estão pedindo a sua vida de volta. Então, com quem ficará o que você construiu?’
21 Assim acontece com quem fica juntando riquezas para si mesmo, porém não enriquece para Deus”.

Versão Galileia - Lucas 12:13-21 


 

Nem o rico era tolo, nem a crítica contra ele foi por causa de sua ambição

Alguns leitores apressados podem entender que o tema principal da Parábola do Rico Egocêntrico (Lc 12:13-21) seria a ambição desmedida dele pelos bens materiais, ou seja, o seu desejo incontrolável de querer acumular cada vez mais riquezas para si mesmo. Talvez pensem isso, porque algumas traduções vertam em língua portuguesa a palavra grega pleonezia (v. 15) como ambição, ganância ou avareza. Todavia, esses deixam de perceber que, antes do início dessa parábola, em seu mote, Jesus foi bem enfático: “Tomem cuidado com todo tipo de mesquinharia, porque a vida de uma pessoa não está na abundância dos seus bens”. Ele disse “todo tipo de mesquinharia” (em algumas traduções, “toda e qualquer avareza”), e não apenas um tipo único de unhaca. 

Subtende-se, assim, que a mesquinhez, citada nessa história alegórica, não é só a mesquinhez pelas posses materiais, mas todo e qualquer sentimento egoísta que não leva em consideração às outras pessoas. Deduz-se, de tal modo, que o tema da parábola não residiria, portanto, no desejo de possuir bens materiais em abundância, mas, sim, no desejo egoísta e solitário de usufruí-los de forma obsessiva e tacanha. Além disso, fica bastante claro que o rico não estava preocupado em ajuntar mais bens, mas em gozar o que já conseguira acumular (...Descanse, coma, beba e festeje! - v. 19).

Outro problema que ocorre na interpretação dessa parábola alude ao título que lhe é dado em muitas versões: A parábola do rico insensato; A parábola do rico tolo, etc. Ora, o rico descrito nessa narrativa alegórica não é nem um pouco bobo. Diante de uma colheita abundante, resolveu construir novos celeiros para guardá-la, com o objetivo de poder viver confortavelmente de seus frutos – quem pode reprová-lo por isso? Seu problema – e a parábola enfatiza isso – é que ele só pensava em si mesmo (observem as formas possessivas: meu ganho; meu trigo; meus bens). Talvez ele supusesse consigo que todos os bens que dispunha eram fruto do seu trabalho, ou seja, que ele conseguiu obter tudo o que possuía, o que incluía a excelente colheita citada na história alegórica, unicamente por seu esforço pessoal, e que, por isso, tudo fosse só seu. A parábola destaca, porém, que ele se esqueceu de que ele não era dono de nada, mas só um mordomo que administrava as riquezas dadas por Deus (...não enriquece para Deus, no v. 21). 

Diante do que foi exposto, é muito mais verossímil entender que Jesus, na parábola em análise, não criticou a ambição do rico, ou o seu desejo por melhorar de vida (qualidades quem mereceriam elogio), mas, sim, o seu egoísmo e a sua falta de solidariedade para com as outras pessoas (defeitos desprezíveis, haja vista o egoísmo), e também a sua falta de gratidão a Deus. Subtende-se da parábola, dessarte, que Jesus criticou, em essência, duas negações feitas pelo homem rico: a negação a Deus; e a negação ao outro.



Observações adicionais


No v. 20, a palavra estúpido traduz a palavra grega aphron – insensível, sem sentimentos. A narrativa parece sugerir que esse rico era inteligente, hábil e prudente, porém a sua preocupação doentia com as suas posses, e o seu desejo de usufruir sozinho os bens que possuía, o tornaram sovina e desprovido de afeto e calor humano. Note-se que ele poderia doar aos necessitados parte da excedente colheita que colhera.


No v. 20 foi traduzido: Nesta mesma noite estão pedindo a sua vida de volta. Lit.: Nesta noite, eles pedem, da parte de você, a sua vida. Note-se que o uso da 3ª pessoa do plural (eles) era comum entre os rabinos de então para denotar a ação de Deus.

No v. 21 foi traduzido: para si mesmo [...] para Deus. Grego: euatou e eis theon, respectivamente. Leia-se: em proveito próprio, e em proveito de Deus.

Cumpre explicitar uma leitura metafórica possível: plantaçoes = a própria vida do homem rico; excelente colheita = as benesses que ele conseguiu por seu próprio esforço a partir do que Deus lhe proporcionara.

A lição expressa na sentença "A vida de uma pessoa não está na abundância dos seus bens", no v. 15, refutaria as duas negações do rico, já citadas. Note a sutileza: essa sentença enfatizaria não que alguém não deveria ter como seu principal objetivo acumular riquezas para si próprio, mas, sim, que ele não deveria querer usufruir sozinho das riquezas que conquistou.